Abandono total, falta de estrutura na segurança pública tem contribuido com o aumento da violência no interior do Maranhão

22/12/2016

A situação precária do policiamento no interior do Maranhão tem se refletido no crescente número de assaltos a banco no estado e o panorama já se tornou rotina em vários municípios da região.

Como é caso da cidade de Icatu, a 115 km de São Luís, que em janeiro deste ano, em plena luz do dia, foi alvo de 12 bandidos que fortemente armados assustaram os moradores com a sua abordagem aterrorizante. Na ocasião, eles dispararam vários tiros e fizeram muitos moradores reféns enquanto assaltavam a agência bancária da cidade.

Quadro parecido cocorreu em Amarante do Maranhão onde os ladrões usavam roupas camufladas para assaltar a agência dos Correios. Em Santo Antônio dos Lopes fugiram levando 800 mil reais e dois carros cheios de reféns e, em Carolina os reféns foram agredidos e humilhados.

Os bandidos fecham as entradas das cidades pequenas e assaltam bancos e correspondentes bancários. No Estado, já foram 193 ataques nos últimos três anos, segundo o Sindicato dos Bancários.

Em Vitorino Freire, a 320 quilômetros de São Luís, a agência bancária, assaltada em agosto deste ano, fica ao lado da delegacia e a 200 metros do posto da Polícia Militar. Mas de acordo com o policial civil, que prefere não se identificar, as ações criminosas têm aumentado porque o posto não possui estrutura adequada. "Precária. Sem carcereiro, sem nada. Somos dois e um delegado", revelou.

A cidade de Vitorino Freire possui atualmente 30 mil habitantes e tem apenas uma viatura da Polícia Militar que conforme um policial, que também não quis revelar a sua identidade, está com pneus carecas e sem combustível. Ele diz que não há possibilidade de lutar contra a criminalidade. "O camarada vai perseguir alguém com essa viatura aqui. Tem condição?", indagou.                                                                                                                                                     A única viatura da Polícia Civil, também está quebrada. Na delegacia, dois policiais fazem o atendimento e ainda cuidam dos presos. O lugar fica o tempo todo no cadeado. No dia do assalto, a polícia foi alvo dos bandidos.

Em Sucupira do Norte não há delegacia. Os boletins de ocorrência têm de ser registrados na cidade vizinha, que fica a 25 quilômetros de distância e quem leva os envolvidos na ocorrência são os policiais militares.

Outro policial que não revelou a sua identidade conta que a viatura de polícia está com os pneus arriados, vidros quebrados e sem funcionar há mais de dez dias. Ele conta que dependendo da ocorrência o veículo utilizado é da própria vítima. "Rapaz, pede desculpa né e diz que estava impossibilitado no momento. Às vezes alguém oferece um carro aí à gente vai".

Em Nova Iorque, a 496 km de São Luís, que tem cinco mil habitantes, o único correspondente bancário funciona com as portas fechadas, por segurança, porque já foi assaltado duas vezes.

A lavradora Mariquinha da Silva diz que já sabe como entrar no correspondente bancário. "Só chega aí puxando aquele ferrãozinho. Abaixa do papelzinho. Puxa assim que abre", revelou.

A Nova Iorque do Maranhão não há um policial sequer. Também não há delegacia. A única que tinha, está fechada há mais de três anos. Quando os moradores precisam da polícia são obrigados a ligar para cidade mais próxima, que fica a cerca de 20 km da região. Só que no local, existe apenas uma viatura, que quando é deslocada para Nova Iorque deixa a outra cidade sem nenhuma segurança.                                                                                                                                                                                                                       O pedreiro José Nazareno da Silva, que reside em Nova Iorque do Maranhão, fala que teme uma ação criminosa por conta da falta de policiamento na área. "Pode acontecer alguma coisa como já aconteceu e ficar correndo atrás dos outros aí de faca na mão, aquela coisa, mas não tem como socorrer", desabafou.

A polícia do município de Pastos Bons, que está atendendo Nova Iorque, também enfrenta problemas. A delegacia da Polícia Civil só tem um investigador. É ele quem cuida dos 12 presos e das armas apreendidas, que ficam vulneráveis. Como não tem viatura, a polícia usa um veículo apreendido.

Os 19 mil habitantes contam com quatro policiais militares durante o dia e apenas uma viatura, que nem sempre está na cidade.

Em Lago Verde, a cidade possui uma viatura da PM, no entanto nem sempre tem combustível para realizar as rondas. Um policial que não quis se identificar afirma que eles ficam recolhidos e só realizam abordagens se ocorrer um fato de grande relevância. "Quando não tem a gente fica recolhido aqui no prédio. Se chegar a acontecer algum fato isolado e a pessoa que vier aqui tiver meios de conduzir a gente até o local a gente vai com o meio da vítima, caso contrário, permanece no prédio, pois não tem como se locomover".

Os policias de Lago Verde ficam em um lugar cedido pela Prefeitura da cidade, onde os presos foram retirados em virtude da situação insalubre. O alojamento lembra uma cela.

Situação parecida acontece no alojamento dos PMs em Conceição do Lago Açu, a 365 km de São Luís. Sem viatura, os dois policiais de plantão usam os próprios carros para atender as ocorrências. Outro PM que não revelou a sua identidade acrescenta que o seu veículo já foi usado em muitas ocorrências. "Esse carro já trabalhou muito aqui quando a viatura não estava aí. Não tem como ir a pé né? Às vezes a gente coloca como é que se diz? Ajuda de combustível".

Há somente uma motocicleta à disposição dos policiais, porém só com um capacete. Quando os policiais saem juntos eles pedem sempre outro capacete emprestado.

O presidente da Regional da Associação dos Policiais, Diego Paixão, diz que impossível manter a ordem e a segurança em um município sem infraestrutura adequada. "Esses policiais não conseguem oferecer segurança nem para si mesmo imagine para uma população de 20, 40 mil habitantes", desabafou.

Sobre a situação precária do policiamento no Maranhão, o secretário de Segurança Pública do Estado, Jefferson Portela, acrescentou que é preciso cobrar mais segurança por parte das agências bancárias a fim de diminuir o índice da criminalidade. "O tratamento que os bancos dão para a segurança interna dos seus estabelecimentos é nota zero. São caixas cheias de dinheiro com as portas abertas 24 horas dia e os bandidos atacam no horário de duas às quatro da manhã. É a média desses ataques. Não crível que alguém coloque uma caixa cheia de dinheiro e não providencie segurança interna para isso".

O secretário disse ainda que desconhecia alguns dos problemas enfrentados nas delegacias do Maranhão, como o estado de abandono de algumas viaturas, e prometeu tomar providências. "Eu acredito que essa viatura não esteja nesse estado pela a cidade que você está falando. Lago da Pedra? Vitorino Freire. Essa viatura não está nesse estado. Pode ter acontecido isso, mas certamente não está pelo porte da cidade que o Comando da PM faz esse controle. Eu vou cobrar isso do Comando imediatamente".

Na semana passada houve mais dois assaltos a bancos no interior do Maranhão. Bandidos fizeram reféns e explodiram uma agência bancária em São Mateus e fizeram o mesmo em Fortaleza dos Nogueiras. Até o prefeito eleito da cidade, Aleandro Passarinho, do PDT, estava entre os três reféns. "Nós todo tempo de frente ao banco com o braço para cima. Eu não consegui mais me manter em pé e praticamente desmaiei, e aí eles pegaram e botaram o pé no meu pescoço", finalizou.

Sobre os comentários do secretário Jefferson Portela a respeito da falta de segurança nas agências bancárias, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) informou que os bancos investem em segurança bancária e que estão empenhados em apoiar as autoridades no combate aos problemas de segurança pública dos quais também são vítimas. Para a entidade é necessário combater as causas desses crimes, como acesso fácil a explosivos, combate as quadrilhas e dificultar o acesso dos bandidos ao produto do crime.

Fonte G 1